A IA amplificou a nossa capacidade de redigir laudos. Mas facilidade e qualidade não são a mesma coisa.
E não parou aí: acelerou a pesquisa, a organização das fotos, a montagem do documento inteiro. São muitas facilidades. Mas tem uma pergunta que ficou me incomodando: será que os nossos laudos ficaram melhores?
Escrever mais rápido não significa concluir com mais rigor. Se a IA amplificou a nossa produção, ela amplificou junto a qualidade do laudo de engenharia, ou só a velocidade?
Todo perito teme a impugnação. Quase ninguém testa o próprio laudo antes.
Foi essa dúvida que me fez construir uma coisa: um time de agentes de IA para avaliar a qualidade dos laudos. Os que eu mesma produzo, e os laudos periciais em que sou chamada para atuar como assistente técnica.
E comecei pelo mais desconfortável. Peguei um laudo meu, de anos atrás, uma perícia de causalidade que eu mesma assinei. Pedi para esse time fazer o papel da outra parte e procurar por onde derrubar o meu trabalho. Ele me devolveu 8 pontos de peso alto para reforçar, os que a outra parte exploraria primeiro.
Todo perito conhece o medo da impugnação de laudo pericial. Mas quase ninguém coloca o próprio laudo à prova antes do juiz fazer isso. A gente entrega e torce. E torcer não é método.
A impugnação de laudo pericial é a contestação formal, dentro do processo, das conclusões ou do método de um laudo, apontando falhas que reduzam ou retirem a sua força probatória. Na prática, ela costuma mirar o elo mais frágil do nexo causal e do raciocínio, não a formatação do documento.
A fragilidade não mora na formatação. Mora no nexo causal.
O que eu vi confirmou a minha suspeita: a fragilidade de um laudo pericial raramente está na formatação. Ela mora no nexo causal (a ligação entre a causa e o dano) e no raciocínio que sustenta essa ligação.
Um exemplo, sem entrar em nenhum caso real. Imagine um laudo que conclui pela responsabilidade de uma obra vizinha a partir de uma intensidade de vibração que ultrapassaria o limite da norma. Só que essa intensidade não foi medida em campo: foi estimada por cálculo. O dado central do laudo, aquele que segura a conclusão inteira, está apoiado numa estimativa, não numa medição. Esse é exatamente o tipo de elo que a outra parte adora puxar. Se ele cede, a cadeia toda vem junto.
Repare que o problema não é a fonte estar errada. É o elo estar afirmado, e não demonstrado. O nexo causal do laudo pericial se sustenta na cadeia inteira: causa, manifestação, dano. Basta um ponto em que a cadeia só foi afirmada, e a conclusão fica exposta.
Cinco frentes de auditoria
Foi por aí que os agentes entraram. Não em uma frente só, em cinco.
1. Conferência formal
O laudo cumpre o que a lei e a norma exigem? A conferência passa o documento contra o Código de Processo Civil, a NBR 13752 (a norma das perícias de engenharia) e as demais normas relacionadas ao caso. É a camada mais objetiva, e a que menos costuma reprovar. Mas é o piso: sem ela, o resto nem se discute.
2. Nexo causal, elo a elo
A cadeia causa, manifestação, dano está demonstrada, ou em algum ponto ela só foi afirmada? Aqui é onde mora a maior parte da fragilidade do laudo pericial. Um dado central estimado por cálculo, sem medição, uma conclusão que salta uma etapa, uma manifestação patológica atribuída a uma causa sem descartar as outras. Cada elo é testado como se a outra parte estivesse do lado de fora, procurando o mais fraco.
3. Hipóteses concorrentes
Que outras causas explicariam o mesmo dano, e não foram consideradas? Se existe uma segunda explicação de pé para a mesma manifestação patológica, o nexo enfraquece. Auditar isso é perguntar, para cada conclusão, o que mais poderia ter provocado aquilo. Uma tese que só é forte porque as alternativas nunca foram olhadas não é uma tese forte.
4. Auditoria do raciocínio
Aqui é o pré-mortem: imaginar o laudo já derrotado e perguntar por quê. É onde aparecem os vícios de raciocínio que passam despercebidos de quem escreveu. Fechamento precoce (decidir a causa cedo e ler o resto do caso para confirmar). Rigor assimétrico (cobrar muito de uma tese e pouco de outra). Correlação tratada como causa (duas coisas aconteceram juntas, logo uma causou a outra). São armadilhas silenciosas, e a gente quase nunca vê as próprias.
5. Cada crítica com página
Nada de achismo: toda observação vem ancorada na norma ou na referência, com a página exata. Se não está no acervo do engenheiro, não é afirmado. Uma crítica sem página é só opinião, e opinião não reforça laudo nenhum.
Não é um prompt. É uma banca.
Até aqui eu falei do que esse time procura. E o que ele procura, qualquer pessoa transforma em cinco perguntas e joga num chat de IA. O que não cabe num prompt é como ele chega lá.
Não é uma IA respondendo cinco perguntas. É uma banca. Cada frente tem o seu especialista, e eles discutem o caso entre si antes de me devolver qualquer coisa. Antes de começar, o time lê que tipo de laudo é aquele e decide sozinho a profundidade que o caso pede: uma vistoria de constatação não passa pelo mesmo escrutínio de uma perícia de causalidade. Ele lê os autos inteiros, previamente anonimizados por uma automação que criei, e alcança mais de 10.000 páginas de um único processo. E prende cada observação na página exata, seja dos próprios autos, seja de normas e livros. Se não está no acervo, ele não afirma. É a diferença entre perguntar para uma IA e submeter o seu laudo a uma banca que raciocina o caso.
Reflexão guiada, não corretor automático
E o que mais me deu segurança foi isto: esse time não dá veredito. Ele não diz "seu laudo está errado". Ele estrutura as dúvidas e me devolve os pontos para eu revisar. Quem raciocina, decide e assina continua sendo o engenheiro.
Faço questão dessa fronteira. Eu mesma não confiaria em nada que prometesse "eliminar o viés" com um clique. Viés não se apaga com botão. O que dá para fazer é organizar as perguntas certas e trazê-las à mesa enquanto ainda dá tempo de responder. É reflexão guiada, não corretor automático.
O que isso muda no dia a dia de quem faz perícia
Ver o próprio laudo sob esse olhar é o melhor tipo de incômodo: o que você recebe em casa, não na frente do juiz.
Esse foi o passo que faltava para mim. Antes, eu já tinha trabalhado a fundamentação, para que cada afirmação do laudo pudesse ser rastreada até a sua fonte. Depois, o acervo próprio, para que o conhecimento que alimenta o trabalho fosse meu, e não uma caixa-preta de fora. Auditar o próprio laudo antes de protocolar fecha esse tripé: produzir com apoio, ser dono do que sustenta o laudo, e testar a peça antes que a outra parte teste.
Se você atua como assistente técnico judicial, o raciocínio é o mesmo, invertido: o que essa banca faz no meu laudo é o que você precisa fazer no laudo do perito, procurar o elo fraco do nexo causal antes da audiência. É o mesmo olhar de auditoria de laudo pericial de engenharia, a serviço da parte que te contratou.
No fim, a IA não me deixou só mais rápida. Ela me deu uma forma de perguntar se eu estou ficando melhor.
Como você confere se um laudo está pronto para protocolar? Não prometo eliminar erro nenhum. Prometo trazer as perguntas difíceis para a mesa enquanto ainda dá tempo de respondê-las.